A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do Alporão. Conquanto Garrett a faça invocar anacrònicamente no Alfageme de Santarém, em estímulo de defesa contra a invasão castelhana, como um dos traços mais expressivos da fisionomia pitoresca da Pátria, essa torre data apenas do tempo de D. Manuel. Não tem carácter pròpriamente arquitectural, é uma simples peça de alvenaria qua…
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A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do Alporão. Conquanto Garrett a faça invocar anacrònicamente no Alfageme de Santarém, em estímulo de defesa contra a invasão castelhana, como um dos traços mais expressivos da fisionomia pitoresca da Pátria, essa torre data apenas do tempo de D. Manuel. Não tem carácter pròpriamente arquitectural, é uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o seu estranho sino a descoberto, sustido na convergência superior de quatro varões de ferro, estribados oblíquamente nos quatro ângulos da torre, e revestidos de púcaras de barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no tanger das horas e dos sinais de rebate, dá-lhe uma feição verdadeiramente especial, inconfundível, indelével. Não será talvez o mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é decerto o mais sugestivo, o mais anedótico, o mais interessante, o mais carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanário de toda essa tão formosa campina ribatejana, o mais aberto sorriso agrário da terra portuguesa. Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de relógio das cabaças ou de cabaceiro se alia harmònicante no ouvido à lembrança das lezírias, das horlas, dos pauis, das courelas e dos olivedos, que o circundam, e fazem dele como que uma parte integrante da paisagem, um natural rebento da terra. O aspecto de improvisação e de interinidade dessa sumária ventana de sino, que parece armada em quatro pampilhos, é uma verdadeira obra de arte, que lembra mais comoventemente do que nehuma outra inventada pelos arquitectos, a origem árabe, a vida nómada, a tradição pastoral da região em que surgiu. (Arte Portuguesa, I, pp. 73-74).
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