Estação de Santa Apolónia
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
[…] Meia folha de papel, tendo simplesmente escrito a lápis: «All right». Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... Não se tornara quase a lembrar dela, desde a véspera, no radiante tumulto em que andara o seu coração. E era no comboio dessa noite, daí a horas, que deviam ambos partir para Santarém, a amarem-se, escondidos numa estalagem! Ele prometera-lho, a sério; já ela se preparara decerto…
see more
Additional Excerpts
Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta talvez - gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem depressa travessou a busca paternal e lenta da Alfândega, e logo se sumiu para a cidade sob a molhada noite de Março.
No casarão soturno, à espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith e uma senhora esgrouviada, de óculos no bico, envolta numa velha capa de peles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asfalto sujo do casarão regelava os pés.
Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços da tia, partiu para Santa Apolónia, com um galego que lhe levava o baú. A madrugada rompia. A cidade estava silenciosa, os candeeiros apagavam-se. Às vezes uma carroça passava rolando, abalando a calçada; as ruas pareciam-lhe intermináveis; saloios começavam a chegar montados nos seus burros, com as pernas balouçadas, cobertas de altas botas enlameadas; numa ou noutra rua uma voz aguda já apregoava os jornais; e os moços dos teatros corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.
Quando chegou a Santa Apolónia, a claridade do sol alaranjava o ar por detrás dos montes da Outra-Banda; o rio estendia-se, imóvel, riscado de correntes de cor de aço sem lustre; e já alguma vela de falua passava, vagarosa e branca.
Carlos acompanhou-os até ao «reservado», num outro vagão que se estivera metendo de novo para Sua Excelência. A condessa tomou o lugar do canto junto da portinhola. E como o conde, num tom de polidez ácida, a aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a máquina, ela teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado desabridamente, enterrou-se com mais força na almofada; e um duro olhar de cólera passou entre ambos. Carlos, embaraçado, perguntava:
- Então vão com demora?
O conde respondeu, sorrindo, disfarçando o seu mau humor:
- Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas férias.
- Três dias, o mais - replicou ela numa voz fria e afiada como uma navalha.
O conde não respondeu, lívido.
Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silêncio caíra sobre a plataforma. O apito da máquina varou o ar; e o comprido trem, num ruído seco de freios retesados, começou a rolar, com gente às portinholas, que ainda se debruçava, estendendo a mão para um último aperto. Aqui e além
esvoaçava um lenço branco. O olhar da condessa para o lado de Carlos teve a doçura de um beijo, o Dâmaso gritou saudades para o Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite…
Ao outro dia a manhã clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos, ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolónia. O comboio acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que se escoava das portinholas abertas, Afonso, com o seu velho capote de gola de veludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de boné agaloado que lhe ofereciam o Hotel Terreirense e a Pomba de Ouro.
Quando nessa noite, uma noite triste de água, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolónia, ele disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo dum amor romântico:
- Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso um banho por dentro!
Afonso da Maia, ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com tristeza:
- Má estreia, filho, péssima estreia!
E nessa noite, depois de voltar de Santa Apolónia, Carlos pensava nestas palavras, dizia também consigo: «Péssima estreia!...» E nem só a estreia do Ega era péssima; também a sua. E talvez, por pensar nisso, as palavras do avô tinham tido aquela tristeza. Péssimas estreias! Havia seis meses que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande peliça, preparado a deslumbrar Lisboa com as «Memórias de Um Átomo», a dominá-la com a influência de uma revista, a ser uma luz, uma força,
mil outras coisas... E agora, cheio de dívidas e cheio de ridículo, lá voltava para Celorico, escorraçado. Péssima estreia! Ele, por seu lado, desembarcara em Lisboa, com ideias colossais de trabalho, armado como um lutador: era o consultório, o laboratório, um livro iniciador, mil coisas fortes... E que tinha
feito? Dois artigos de jornal, uma dúzia de receitas, e esse melancólico capítulo da «Medicina entre os Gregos». Péssima estreia!
O Baptista servira o café. E a carruagem da senhora, que os devia levar a Santa Apolónia, esperava já à porta com a maleta. Mas Ega agora queria conversar, afirmou que tinham tempo, tirou o relógio. Estava parado. E ele declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flores e como as
aves...
- Fica agora em Lisboa? - perguntou-lhe Maria Eduarda.
- Não, minha senhora, só o tempo de cumprir o meu dever de cidadão, subindo duas ou três vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Sintra começa a ser interessante para mim, agora que não está ninguém... Sintra, de Verão, com burgueses, parece-me um idílio com nódoas de sebo.
Quando nessa noite, acompanhados pelo Vilaça, Carlos e Ega chegaram à estação de Santa Apolónia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de saltar para o seu compartimento reservado - enquanto o Baptista, abraçado às mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se içava desesperadamente para
outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O trem imediatamente rolou. Carlos debruçou-se à portinhola, gritando ao Ega: «Manda um telegrama amanhã a dizer o que houve!»
Combinaram então que ela fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida de Carlos para Santa Olávia. À noitinha levava-o no "coupé" a Santa Apolónia; depois seguia para os Olivais.
No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia, Ega, que viera cedo com o Vilaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria que entrava trazendo Rosa pela mão. […] Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silêncio, ao vagão-salão, que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ela tirou devagar a luva. E muda, estendeu-lhe a mão.
- Ainda nos vemos no Entroncamento - murmurou Ega. - Eu sigo também para o Norte.
[…]
O comboio partiu.
Ao chegar a Santa Apolónia faltavam, para a partida do expresso, dois minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, já quase vazia àquela hora, a comprar uma admissão; e ainda aí esperou uma eternidade, vendo dentro do postigo duas mãos lentas e moles arranjar laboriosamente os patacos de um troco.
Penetrava enfim na sala de espera - quando esbarrou com o Dâmaso, de chapéu desabado e sacola de viagem a tiracolo. Dâmaso agarrou-lhe as mãos, enternecido:
- Ó menino! pois tiveste o incómodo?... E como soubeste tu que eu partia?
Carlos não o desiludiu, balbuciando que lho dissera o Taveira, que encontrara o Taveira...
- Pois eu estava mais longe de uma destas! - exclamou o Dâmaso. Esta manhã, muito regalado na cama, quando me vem o telegrama... Fiquei furioso! Isto é, imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!...
Foi então que Carlos reparou que ele estava carregado de luto, com fumo no chapéu, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no lenço...
Murmurou, embaraçado:
- O Taveira disse-me que ias, mas não me disse mais nada... Morreu-te alguém?
- Meu tio Guimarães.
- O comunista? o de Paris?
- Não, o irmão dele, o mais velho, o de Penafiel... Espera aí que eu volto já, vou ali ao café encher o frasco de conhaque. Com a aflição esquecia-me o conhaque...
Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pó, com chapeleiras na mão. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens. De uma portinhola, onde se exibia um cavalheiro barrigudo, com um boné bordado a retrós, pendia todo um cacho de amigos políticos, respeitosamente e em silêncio. A um canto uma senhora soluçava por baixo do véu.
Carlos, vendo um vagão com a papeleta de «reservado» imaginou lá a condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanação de um santuário. Que queria ele, que queria ele dali? Não sabia que era o «reservado» do Sr. Carneiro?
- Não sabia.
- Perguntasse, devia saber! - ficou o outro a resmungar, ainda trémulo.
Carlos correu ainda outros vagões, onde a gente se apinhava, atabafadamente, na amontoação dos embrulhos; num, dois sujeitos, a propósito de lugares, tratavam-se de «malcriados»; adiante, uma criança esperneava no colo da ama, aos gritos.
- Ó menino, quem diabo andas tu a procurar? - exclamou Dâmaso alegremente, surgindo por trás dele, e passando-lhe o braço pela cinta.
- Ninguém... Imaginei que tinha visto o marquês.
Imediatamente Dâmaso queixou-se daquela lúgubre maçada de ter de ir a Penafiel!
Havia aqui uma antipatia de instinto, toda fisiológica, cuja intransigência e obstinação nem factos nem raciocínios podiam vencer. Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa, a inábil, descomedida e papalva imitação de Paris. Essa «saloia macaqueação», superiormente denunciada por ele numa carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, num luminoso resumo, que «Lisboa é uma cidade traduzida do francês em calão» - tornava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apolónia, um tormento sincero.
- Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolónia, fui tomar um banho ao Central e não me deitei. Olhe que é uma grande comodidade o tal "sleeping-car"! Ah lá isso, em progresso, o nosso Portugal já não está atrás de ninguém!...
×