Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi quando ele, ao fim de umas férias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga espanhola, e a instalou numa casa ao pé de Celas. Chamava-se Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mês uma vitória com um cavalo branco e Encarnacion fanatisou Coimbra como a aparição de uma Dama das Camélias, uma flor de luxo das civilizações superiores. Pela Cal…
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Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi quando ele, ao fim de umas férias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga espanhola, e a instalou numa casa ao pé de Celas. Chamava-se Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mês uma vitória com um cavalo branco e Encarnacion fanatisou Coimbra como a aparição de uma Dama das Camélias, uma flor de luxo das civilizações superiores. Pela Calçada, pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pálidos de emoção, quando ela passava, reclinada na vitória, mostrando o sapato de cetim, um pouco da meia de seda, lânguida e desdenhosa, com um cãosinho branco no regaço.
Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada «Lírio de Israel», «Pomba da Arca», e «Nuvem da Manhã». Um estudante de teologia, rude e sebento transmontano, quis casar com ela. Apesar das instâncias de Carlos, Encarnacion recusou; e o teólogo começou a rondar Celas, com um navalhão, para «beber o sangue» ao Maia. Carlos teve de lhe dar bengaladas.
Mas a criatura, desvanecida, tornou-se intolerável, falando sem cessar de outras paixões que inspirara em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe dera o conde de tal, o marquês sicrano, da grande posição da sua família ainda aparentada com os Medina-Coeli: os seus sapatos de cetim verde eram tão antipáticos como a sua voz estrídula: e quando tentava elevar-se às conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões aos republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua "gracia", o seu "salero" - sendo muito conservadora como todas as prostitutas. João da Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos Paços de Celas enquanto por lá aparecesse aquele montão de carne, pago ao arrátel, como a de vaca.
Enfim, uma tarde, Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos, surpreendeu-a com um Juca que fazia de dama no Teatro Académico. Aí estava, enfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos Medina-Coeli, o «Lírio de Israel», a admiradora dos Bourbons, foi recambiada a Lisboa e à Rua de S. Roque, seu elemento natural.
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