Teatro de São Carlos
Camilo Castelo Branco — A Queda dum Anjo
Assanhou o abade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o Estado subsidiava o teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais. Calisto fez pé atrás, e exclamou:
- Obstupui!... O abade zomba!... O Estado!... O meu colega disse o Estado!
- Sim, o tesouro... - confirmou o clérigo.
- A "res publica"? o dinheiro da Nação?
- Certamente: pois de quem há-de ser o dinheiro, senão da Nação?
-…
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Additional Excerpts
E sentiu um desejo furioso de a acabrunhar, de lhe atirar em rosto todas as bondades que tivera com ela, os seus sacrifícios, as "toilettes" que lhe dera, os caprichos a que obedecera... e o camarote em S. Carlos, e as dedicações do seu amor. Não se conteve, voltou à sala de jantar, com os lábios cheios de exprobações.
Era porém inútil lembrar ao Ega este belo plano. Abria um olho vago, respondia:
- Ah, a Revista... Sim, está claro, pensar nisso! Havemos de falar, eu aparecerei…
Mas não aparecia no Ramalhete, nem no consultório; apenas se avistavam, às vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que não passava no camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa de Carlos, por trás de Taveira ou do Cruges; de onde pudesse olhar de vez em quando Rachel Cohen - e ali ficava, silencioso, com a cabeça apoiada ao tabique, repousando e como saturado de felicidade...
O dia (dizia ele) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava estudando mobílias... Mas era fácil encontra-lo pelo Chiado e pelo Loreto, a rondar e a farejar - ou então no fundo de tipóias de praça, batendo a meio galope, num espalhafato de aventura.
Em Outubro daquele ano, a frisa dezasseis do teatro de S. Carlos expôs uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns rapazes da nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de Sintra.
Era lfigénia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição genuína da Circássia, outros a romana herdeira do perfil correcto das Faustinas e Fúlvias; e os mais circunscreviam a sua admiração à mulher dispensando-se de lhe esquadrinhar o tipo.
Ao fim de quatro dias, voltaram, e esta lua-de-mel prolongou-se ainda em Lisboa, cheia e larga, sem uma nuvem, sem considerações por despesas, com carruagem da companhia e camarote, em S. Carlos.
Carlos ficou pensando naquela proposta do Ega, na maneira como ele sublinhara o «empenho» da condessa. Lembrava-se agora que ela era muito íntima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, naquela fácil vizinhança de frisa, surpreendera certos olhares dela... Mesmo, segundo o Taveira, ela realmente «fazia-lhe um olhão». E Carlos achava-a picante, com os seus cabelos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos escuros, dum grande brilho, dizendo mil coisas. Era deliciosamente bem feita - e tinha uma pele muito clara, fina e doce à vista, a que se sentia mesmo de longe o cetim.
Depois daquele dia tristonho de aguaceiros, ele resolvera passar um bom serão de trabalho, ao canto do fogão, no conforto do seu "robe-de-chambre".
Mas, ao café, os olhos da Gouvarinho começaram a faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe um «olhão», colocando-se tentadoramente entre ele a sua noite de estudo, pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse Mefistófeles de Celorico!
Vestiu-se, foi a S. Carlos.
A sua imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no cetim das formas, onde sentia ao mesmo tempo alguma coisa de maduro e de virginal... E outra vez, como nas primeiras noites que os vira em S. Carlos,
aqueles cabelos tentavam-no, assim avermelhados, tão crespos e quentes...
Saiu. E dera apenas alguns passos na Rua Nova do Almada, quando avistou o Dâmaso, num "coupé" lançado a grande trote, que o chamava, mandava parar, com a face à portinhola, vermelho e radiante:
- Não tenho podido lá ir - exclamou ele, apoderando-se-lhe da mão, apenas Carlos se aproximou, e apertando-lha com entusiasmo. - Tenho andado num turbilhão!... Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te contarei!... Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó «Calção»!
A parelha abalou; ele ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão, gritou no rumor da rua:
- Um romance divino, chique a valer!
Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft, que acabava de «bater» o marquês, perguntou, pousando o taco e acendendo o cachimbo:
- E notícias do nosso Dâmaso? Já se esclareceu esse lamentável desaparecimento?...
Carlos então contou como o encontrara, afogueado e triunfante, atirando-lhe da portinhola do "coupé", em plena Rua Nova do Almada, a notícia de um romance divino!
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