Largo da Graça
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Carlos, nessa manhã, ia visitar de surpresa a casa do Ega, a famosa Vila Balzac, que esse fantasista andara meditando e dispondo desde a sua chegada a Lisboa, e onde se tinha enfim instalado.
Ega dera-lhe esta denominação literária, pelos mesmos motivos porque a alugara num subúrbio longínquo, na solidão da Penha de França, - para que o nome de Balzac, seu padroeiro, o silêncio campestre, os ares …
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Additional Excerpts
O "coupé" partiu, ia entrar no Largo da Graça, quando uma caleche de praça, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapéu baixo ia lendo um grande jornal.
- É o Craft! - gritou Ega, debruçando-se pela portinhola.
O "coupé" parou. Ega de um pulo estava na calçada, correndo, bradando:
- Ó Craft! Ó Craft!
Quando, daí a um momento, sentiu duas vozes aproximarem-se, Carlos desceu também do "coupé", achou-se em face dum homem baixo, louro, de pele rosada e fresca, e aparência fria. Sob o fraque correcto percebia-se-lhe uma musculatura de atleta.
- O Carlos, o Craft - gritou o Ega, lançando esta apresentação com uma simplicidade clássica.
Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mão. E Ega insistia para que voltassem todos à Vila Balzac, fossem beber a outra garrafa de Champagne, a celebrar o advento do Justo! Craft recusou, com o seu modo calmo e plácido; chegara na véspera do Porto, abraçara já o nobre Ega, e aproveitava agora a viagem àquele bairro longínquo para ir ver o velho Shlegen, um alemão que vivia à Penha de França.
- Então outra coisa! - exclamou Ega. - Para conversarmos, para que vocês se conheçam mais, venham vocês jantar comigo amanhã ao Hotel Central. Dito, hem? Perfeitamente. Às seis.
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