Às vezes descia os vidros, olhava. A charneca monótona e escura perdia-se, dos dois lados, na escuridão. Um vento frio rolava as suas ondulações lentas por cima dos terrenos lisos. E as mesmas estrelinhas, no ar, pareciam tremer de frio. Vinham-lhe ao cérebro frases de romances, pedaços de árias. Mas a melopeia do fado exprimia melhor o vago sentimentalismo dolente do seu espírito. E pôs-se a cant…
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Às vezes descia os vidros, olhava. A charneca monótona e escura perdia-se, dos dois lados, na escuridão. Um vento frio rolava as suas ondulações lentas por cima dos terrenos lisos. E as mesmas estrelinhas, no ar, pareciam tremer de frio. Vinham-lhe ao cérebro frases de romances, pedaços de árias. Mas a melopeia do fado exprimia melhor o vago sentimentalismo dolente do seu espírito. E pôs-se a cantá-lo, com os olhos cerrados, e sentindo uma saudade infinita, uma ternura transbordante.
Mas a estrada entrava entre dois altos muros paralelos, donde soluçavam ramagens murmurosas. Era o Ramalhão. O ar parecia mais fino, como refrescado da abundância das águas. Sentia-se uma vaga serenidade de parques e de arvoredos. Alguma coisa de suave e de elegante circulava. Havia o silêncio dos repousos delicados e das existências ociosas. Era o Ramalhão.
Na Praça, algumas lojas punham as claridades mortiças das noites de província. Não havia ruídos, e bem depressa o "coupé" parou à porta da Lawrence.
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