Tormes

Eça de Queirós — A Cidade e as Serras
Em fila começámos a subir para a serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes de flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada.… see more

Additional Excerpts

Dentro, na “nossa sala”, ambos nos sentámos nos poiais da janela, contemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia sobre o vale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a Vénus diamantina, lânguida anunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacinto nunca considerara demoradamente aquela estrela, da amorosa refulgência, que perpetua no nosso Céu católico a memória da deusa incomparável – nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. E este enegrecimento dos montes que se embuçam em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de sussurrar; o rebrilho dos casais mansamente apagado; o cobertor de névoa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales; um toque sonolento de sino que rola pelas quebradas; o segredado cochichar das águas e das relvas escuras – eram para ele como iniciações. Daquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda somente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim descansa.
Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, talhões de alface, gordas folhas de abóbora rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, donde já subia tenuamente a névoa de algum ribeiro. Toda a esquina do casarão desse lado se encravava em laranjal. E de uma fontinha rústica, meio afogada em rosas tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de água.
As três janelas, sem cortinas, contemplavam a beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava nas resinas do pinheirais, depois nas roseiras da horta.
E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a bengala por cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto meditava, estas transformações da terra, muito progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu Príncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse tangendo uma vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os moços, quando à borda de um caminho ou num campo em monda, eles se endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. Decerto o empecia a preguiça, e talvez o pudico recato de transpor toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada supercivilização até à rude simplicidade daquelas almas naturais - mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da lavoura e da terra […] Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um saber ainda frágil) a época das sementeiras e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis e vagas.
Através das janelas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e circulava como num eirado, com um cheiro fresco de horta regada. Mas o que avistávamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabeço e descendo pelo pendor suave, à maneira de uma hoste em marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais longe as serras do além-rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a brancura do céu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade divina. E lá de baixo, dos vales, subia, desgarrada e melancólica, uma voz de pegureiro cantando.
Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através de anos, ali acumulado trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e vinhas nos olmos, e sombras e charcos, que tornavam deliciosa, para uma écloga, aquela morada da Fome, Doença e Tristeza. […] E, no bocado de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha húmida reluzia, da chuva caída através da telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquela penumbra de porcaria escura parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos, cacos, restos, onde só mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda a serra, passara uma tormenta devastadora, de vento, corisco e água. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador Silvério), um pedaço de monte, que se avançava em socalcos sobre o vale da Carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rústica do século XVI […] Esse velho solo serrano, tão rijo e firme desde os Godos, que de repente ruía! Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro fundo de vale!
Também por vezes nos enfronhávamos com aferro numa partida de gamão, sobre um velho tabuleiro de pau-preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o Silvério. Mas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.
Aquele grande mar da "Odisseia" […] exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam…
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