Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao Baptista, que, com um joelho em terra, apressado também, quase fez saltar os botões da bota. E Dâmaso, de chapéu na cabeça, agitava-se, exagerando a sua impaciência, a estalar de importância.
- Sempre a gente se vê em coisas!... Olha que responsabilidade a minha! Vou visitá-los, como costumo às vezes, de manhã... E vai, tinham partido para Queluz.
C…
see more
Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao Baptista, que, com um joelho em terra, apressado também, quase fez saltar os botões da bota. E Dâmaso, de chapéu na cabeça, agitava-se, exagerando a sua impaciência, a estalar de importância.
- Sempre a gente se vê em coisas!... Olha que responsabilidade a minha! Vou visitá-los, como costumo às vezes, de manhã... E vai, tinham partido para Queluz.
Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meio vestida:
- Mas então?...
- Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a governanta... Depois do almoço deu-lhe uma dor. A governanta queria um médico inglês, porque não fala senão inglês... Do hotel foram procurar o Smith, que não apareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente, cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!
E acrescentou, dando um olhar ao jardim:
- Também, irem a Queluz com um dia destes! Hão-de-se divertir... Estás pronto, hem? Eu tenho lá em baixo o "coupé"... Deixa as luvas, vais muito bem sem luvas!
[…]
O "coupé" parara à porta do Hotel Central. Dâmaso saltou, correu ao guarda-portão.
- Mandou o telegrama, António?
- Já lá vai...
- Tu compreendes - dizia ele a Carlos, galgando as escadas - mandei-lhes logo um telegrama para o hotel em Queluz. Não estou para ter mais responsabilidades!...
No corredor, defronte do escritório, um criado passava, com um guardanapo debaixo do braço:
- Como está a menina? - gritou-lhe o Dâmaso.
O criado encolheu os ombros, sem compreender.
Mas Dâmaso já trepava o outro lanço de escada, soprando, gritando:
- Por aqui Carlos, eu conheço isto a palmos! Número 26!
Abriu com estrondo a porta do número 26. Uma criada, que estava à janela, voltou-se.
- Ah! "Bonjour", Melanie! - exclamava Dâmaso, no seu extraordinário francês. - A criança está melhor? "L’enfant était meilleur"? Ali lhe trazia o doutor, "monsieur le docteur Maia".
see less