Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir à Pena. Alencar, por si, ia também com prazer. A Pena para ele era outro ninho de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemitério... Carlos hesitava, parado junto da grade. Estaria ela na Pena? E olhava a estrada, olhava as árvores, como se pudesse adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover das folhas, que direcção tinham tomado os pass…
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Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir à Pena. Alencar, por si, ia também com prazer. A Pena para ele era outro ninho de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemitério... Carlos hesitava, parado junto da grade. Estaria ela na Pena? E olhava a estrada, olhava as árvores, como se pudesse adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover das folhas, que direcção tinham tomado os passos que ele seguia... Por fim teve uma ideia.
- Vamos indo primeiro à Lawrence. E depois se quisermos ir à Pena, arranjam-se lá os burros...
E nem mesmo quis escutar o Alencar, que tivera também uma ideia, falava de Colares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; acelerou o passo para a Lawrence, enquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da ceroula, e o maestro, num entusiasmo bucólico, ornava o chapéu de folhas de hera.
Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na boca, não tendo podido apoderar-se dos ingleses, preguiçavam ao sol.
- Vocês sabem - perguntou-lhes Carlos - se uma família, que está aqui no hotel, foi para a Pena?...
Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.
- Sim, senhor, foram para lá há bocado, e aqui está o burrinho também para Vossa Excelência, meu amo!
Mas o outro, mais honesto, negou. Não senhor, a gente que fora para a Pena estava no Nunes...
- A família que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palácio...
- Uma senhora alta?
- Sim, senhor.
- Com um sujeito de barba preta?
- Sim, senhor.
- E uma cadelinha?
- Sim, senhor.
- Tu conheces o sr. Dâmaso Salcede?
- Não, senhor... É o que tira retratos?
- Não, não tira retratos... Tomai lá.
Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao encontro dos outros, declarando que realmente era tarde para subirem à Pena.
- Agora o que tu deves ver, Cruges, é o palácio. Isso é que tem originalidade e "cachet"! Não é verdade, Alencar?...
- Eu vos digo, filhos - começou o autor de Elvira - historicamente falando...
- E eu tenho de comprar as queijadas - murmurou Cruges.
- Justamente! - exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; é necessário não perder tempo; a caminho!
Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palácio, em quatro largas passadas estava lá. E logo da praça avistou, saindo já o portão, passando rente da sentinela, a famosa família hospedada na Lawrence e a sua cadelinha de luxo. […]
Carlos ficou a olhar para aquele par com a melancolia de quem contempla os pedaços dum belo mármore quebrado. Não esperou mais pelos outros, nem os quis encontrar. Correu à Lawrence por um caminho diferente, ávido de uma certeza: - e aí, o criado que lhe apareceu disse-lhe que o sr.
Salcede e os senhores Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra…
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