Ega ia subir. Mas o marquês apareceu, abafado num gabão de Aveiro, fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficara em cima a recitar quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquês detestava versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu do botequim, abotoando o paletó. Então, perante essa debandada de todos os amigos, Ega decidiu abalar também, ir tomar o seu grogue ao Grémio com o maestro.
Meteram o marquês numa tipóia - e ele e Cruges desceram a Rua Nova da Trindade, devagar, no encanto estranho daquela noite de inverno, sem estrelas, mas tão macia que nela parecia andar perdido um bafo de Maio.
Passavam à porta do Hotel Aliança quando Ega sentiu alguém, que se apressava, chamar atrás: «Ó Sr. Ega! Vossa Excelência faz favor, Sr. Ega?...» - Parou, reconheceu o chapéu recurvo, as barbas brancas do sr. Guimarães.
- Vossa Excelência desculpe! - exclamou o demagogo esbaforido. - Mas vi-o descer, queria dar-lhe duas palavras, e como me vou embora amanhã...
- Perfeitamente... Ó Cruges, vai andando, já te apanho!
O maestro estacionou à esquina do Chiado. O sr. Guimarães pedia de novo desculpa. De resto eram duas curtas palavras...
- Vossa Excelência, segundo me disseram, é o grande amigo do sr. Carlos da Maia... São como irmãos...
- Sim, muito amigos...
A rua estava deserta, com alguns garotos apenas à porta alumiada da Trindade. Na noite escura, a alta fachada do Aliança lançava sobre eles uma sombra maior. Todavia o Sr. Guimarães baixou a voz cautelosa:
- Aqui está o que é... Vossa Excelência sabe, ou talvez não saiba, que eu fui em Paris íntimo da mãe do sr. Carlos da Maia... Vossa Excelência tem pressa, e não vem agora a propósito essa história. Basta dizer que aqui há anos ela entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha papéis importantes… Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras coisas em que pensar, os anos correram, ela morreu. Numa palavra, porque Vossa Excelência está com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse depósito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negócios da herança de meu irmão... Ora hoje justamente, ali no teatro, comecei a reflectir que o melhor era entregá-lo à
família...
O Cruges mexeu-se impaciente:
- Ainda te demoras?
- Um instante! - gritou Ega, já interessado por aqueles papéis e pelo cofre. Vai andando.
Então o sr. Guimarães, à pressa, resumiu o pedido. Como sabia a intimidade do sr. João da Ega e de Carlos da Maia, lembrara-se de lhe entregar o cofrezinho para que ele o restituísse à família...
- Perfeitamente! - acudiu Ega. - Eu estou mesmo em casa dos Maias, no Ramalhete.
- Ah, muito bem! Então Vossa Excelência manda um criado de confiança amanhã buscá-lo... Eu estou no Hotel Paris, no Pelourinho. Ou melhor ainda: levo-lho eu, não me dá incomodo nenhum, apesar de ser dia de partida...
- Não, não, eu mando um criado! - insistiu o Ega estendendo a mão ao democrata.
Ele estreitou-lha com calor.
- Muito agradecido a Vossa Excelência! Eu junto-lhe então um bilhete e Vossa Excelência entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou à irmã.
Ega teve um movimento de espanto:
- À irmã!... A que irmã?
O sr. Guimarães considerou Ega também com assombro. E abandonando-lhe lentamente a mão:
- A que irmã!? À irmã dele, à única que tem, à Maria!
Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado, gritou da esquina:
- Bem, eu vou andando para o Grémio.
- Até logo!
O sr. Guimarães, no entanto, passava os dedos calçados de pelica preta pelos longos fios da barba, fitando o Ega, num esforço de penetração. E quando Ega lhe travou do braço, pedindo-lhe para conversarem um pouco até ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentidão
desconfiada.
- Eu parece-me - dizia o Ega sorrindo, mas nervoso - que nós estamos aqui a enrodilhar-nos num equívoco... Eu conheço o Maia desde pequeno, vivo até agora em casa dele, posso afiançar-lhe que não tem irmã nenhuma...
Então o sr. Guimarães começou a rosnar umas desculpas embrulhadas, que mais enervavam, torturavam o Ega. O sr. Guimarães imaginava que não era segredo, que todas essas coisas da irmã estavam esquecidas, desde que houvera reconciliação...
- Como vi, ainda não há muitos dias, o sr. Carlos da Maia com a irmã e com Vossa Excelência, na mesma carruagem, no Cais do Sodré...
- O quê! Aquela senhora! A que ia na carruagem?
- Sim! - exclamou o sr. Guimarães irritado, farto enfim dessa confusão em que se debatiam. - Aquela mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria Eduarda Maia, como quiser, que eu conheci de pequena, com quem andei muitas vezes ao colo, que fugiu com o Mac Gren, que esteve depois com a besta do Castro Gomes... Essa mesma!
Era ao meio do Loreto, sob o lampião de gás. E o sr. Guimarães de repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma terrível palidez cobrir-lhe a face.
- Vossa Excelência não sabia nada disto?
[…]
Ega, como a um clarão de relâmpago, entrevira toda a catástrofe: e agarrou avidamente o braço do Sr. Guimarães, num terror que ele abalasse, desaparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses papéis, o cofre da Monforte, e com eles a certeza - a certeza por que agora ansiava. E através
do Loreto, vagamente, foi balbuciando, justificando a sua emoção, para tranquilizar o homem, poder lentamente arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira.
see less