Rio Douro

Eça de Queirós — A Cidade e as Serras
Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia um barco lento carregado de pipas. Para além, outros socalcos, de … see more

Additional Excerpts

Quando, porém, Maria teve outro filho, um pequeno, o sossego que então se fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coração de Pedro a imagem do pai abandonado naquela tristeza do Douro.
Na água do rio, reflectindo-se nela como num espelho, passa devagar, levado na corrente, um grande barco esguio da cor da madeira por pintar, um pouco dourado pela luz; à popa, imóvel, em pé sobre a pegada em forma de quiosque quadrado e de tecto chato, o timoneiro empunha a longa espadela que serve de leme à embarcação, enquanto à proa, junto do abrigo da chilreira pontiaguda, quatro remadores, as pás recolhidas, os braços cruzados, se deixam ir ao som da água. No lagar, sob o soalho do meu quarto, ouço correr o vinho como numa fonte de jardim; um picante cheiro de mosto, subindo no ar, parece encher todo o vale; e, ao longe, entre as vindimadeiras, uma voz de soprano, rija, metálica, entoa uma das dolentes e arrastadas cantigas, ao mesmo tempo tiste e zombeteiras, de cima do Douro. É a bacia da Régua - a mais rica, a mais fértil, a mais abundante região agrícola de Portugal, de que o pingue e risonho Vale de Jungueiros é a expressão superlativa e culminante.
Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia desenrolando sob a lenta varredela do vento, que as varria, despejadas e vazias, para um canto escuso dos céus. Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura que bebera largamente reluzia consolada. Bruscamente, ao sairmos da estreita vereda, para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira […].
Então o carregador lembrou que perto, no Casal da Giesta, ainda pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa égua e um jumento... E o prestante homem enfiou numa carreira para a Giesta – então o meu Príncipe e eu caíamos num banco, arquejantes e sucumbidos, como naúfragos. O vasto Pimentinha, com as mãos nas algibeiras, não cessava de nos contemplar, de murmurar: "É de arrelia." O rio defronte descia, preguiçoso e como adormentado sob a calma já pesada de Maio, abraçando, sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para além a serra crescia em corcovas doces, com uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma vilazinha clara. O espaço imenso repousava num imenso silêncio. Naquelas solidões de monte e penedia, os pardais, revoando no telhado, pareciam aves consideráveis.
[…] esperámos com alvoroço a pequenina estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás a serra coberta de velho e denso arvoredo…
[…] Então Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braços ao Baptista para ele lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava, pedindo um abraço filial para Afonso, e recados para o gordo Sequeira. Foi acompanha-los a baixo, em cabelo: e fechou ele a portinhola, prometendo a Maria Eduarda uma visita à Toca, apenas Carlos voltasse desses penhascos do Douro…
E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu conhecia desde pequeno, porque o velho solar, com a sua nobre alameda de faias seculares, se erguia a duas léguas da nossa casa, no antigo caminho de Guiães à estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha - e muitas vezes, depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no robusto casarão de granito, e avaliara o grão espalhado pelas salas sonoras, e provara o vinho novo nas adegas imensas… - E a igreja, Zé Fernandes?... Entraste na igreja? - Nunca… Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra, onde há muitos anos vivia uma família de cegonhas… Terrível transtorno para as cegonhas!
E não tardaram a aparecer no córrego, para nos levarem a Tormes, uma égua ruça, um jumento com albarda, um rapaz e um podengo. […] E começámos a trepar o caminho, que não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os Jacintos do século XIV! Logo depois de atravessarmos uma trémula ponte de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Príncipe, com o olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das oliveiras… E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparável beleza daquela serra bendita! Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o Divino Artista que faz as serras e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez de seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sobre as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante… Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas dos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados… Todo um cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando - ou mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas… […] Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiam hospitaleiramente quando nós passámos. Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores.
[…] Estas compras eram discutidas em casa das Silveiras, à braseira: e as alusões recatadas, mas inevitáveis, às duas fronhasinhas, ao tamanho dos lençóis, aos cobertores de papa para os conchegos de Janeiro - em lugar de inflamar o magistrado, inquietavam-no. Nos dias seguintes aparecia preocupado - como se a perspectiva da santa consumação do matrimónio lhe desse o arrepio de uma façanha a empreender, o ter de agarrar um touro, ou nadar nos cachões do Douro.
Nos gordos nateiros da beira da água, terras de aluvião tão férteis como as do Nilo, as vegetações tomam proporções fantásticas e lembram uma decoração teatral de mágica. As couves galegas parecem árvores, debaixo das quais se poderia merendar à sombra, e as abóboras têm o volume enorme de grandes mulheres gordas vestidas de amarelo e acocoradas na terra preta. Por cima das cepas derrubadas com o peso das uvas vicejam as árvores do pomar caregadas de fruto: as laranjeiras, os pessegueiros, os damasqueiros, as figueiras, as pereiras, as cerejeiras e as gingeiras. Contra os muros esverdeados de musgo bracejam os limoeiros doces e azedos. As sebes dos campos são feiras de marmeleiros entrelaçados. Nos debruns das leiras e no sopé dos muros, por entre as hastes de hera e as moitas de fetos, de violetas e de dedaleiras em flor, rebentam os morangos e as groselhas. Todas as plantas de jardim têm um viço portentoso e um desenvolvimento incomparável. Em dois anos um só pé de roseira cobre toda a fachada de um "cottage"; as begónias e os colandiuns parece estalarem de seiva, e uma palmeira ao pé do Moledo dá frutos ao ar livre.
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