Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque é o unico architecto portuguez de
quem conhecemos, com relação á historia do edificio e ao plano da
restauração da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
que me refiro, além de mui interessantes revelações sobre os vandalismos
perpetrados pelos ultimos frades que habitaram …
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Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque é o unico architecto portuguez de
quem conhecemos, com relação á historia do edificio e ao plano da
restauração da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
que me refiro, além de mui interessantes revelações sobre os vandalismos
perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os
visitantes com cabeças das figuras de que elles se compunham, contém
alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse
perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
comprehendia a sua delicada missão. E excellente o methodo por elle
proposto para a conservação das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns
excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao
restaurador repugna adoptar, para o fim de pôr o monumento ao abrigo das
intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao
tempo da construcção primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de
cimentos modernos na vedação de uma cobertura, etc. A memoria programma
de Mousinho de Albuquerque é não obstante um trabalho de incontestavel
merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse
illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em
que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela
primeira vez a attenção dos poderes publicos.
Até Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um
puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do
gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as
xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castellãs, os seus
paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
attributos--lanças, montantes, elmos, guantes de ferro, falcões, adagas,
béstas e bandolins, pediam um scenario de fortificação feudal, fossos e
pontes levadiças, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de
menagem, amplas chaminés com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas.
As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que não
eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos
os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
romance historico, tanto em voga durante a geração litteraria de
Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas ás da poesia
cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo
por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado
geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira apparição da
_Abobada_ no _Panorama_, até hoje, o _grande livro de marmore_, o
_immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante
affirmação da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela
vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lança de D. Nuno
Alvares Pereira e pela penna de João das Regras.
Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito
d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria,
destinado a commemorar esse feito, por voto de D. João I. Mas d'ahi a
poder-se dizer que o edificio da Batalha é, como a epopéa dos
_Luziadas_, a imagem technica das idéas e dos sentimentos da patria,
medeia--me parece--um largo abysmo.
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